Aprendendo a ver com o coração
Do dia 18 ao dia 21 de abril, estive em Ouro Preto participando do Workshop do Olhar, ministrado pelo fotógrafo Vinicius Matos. Demorei a escrever sobre essa experiência aqui no blog, porque demorei a saber como escrever. Não queria falar só sobre a parte prática, como fiz aqui no texto sobre o slideshow. Quando me inscrevi neste workshop, meu objetivo era aprender sobre fotografia documental para um projeto pessoal que tenho em mente. E aprendi. Mas aprendi muito mais do que isso. O mais importante desses quatro dias de workshop, foi que ele mexeu com os sentimentos dos participantes. Difícil de explicar, muito difícil mesmo. Mas vou tentar, vamos lá…
Vou começar pelas pessoas que estavam lá…todas muito especiais. Parece que o pessoal da Escola de Imagem escolheu a dedo alguns dos fotógrafos mais malucos simpáticos do Brasil e juntou todos numa casa pra ver no que dava (sim, estou me incluindo na categoria dos simpáticos… a modéstia eu deixei lá em Ouro Preto! rs…). E deu muita coisa boa! Muita amizade, muito companheirismo, muita festa, muita doideira diversão, muitas risadas, muita fotografia, muita choradeira. Sim, muita choradeira. E não foi por causa das críticas do professor Vinícius Matos. Foi pelo sentimento geral de realização, de quebra de paradigmas (aprendemos com o Vinicius) e superação de dificuldades. Choramos de emoção.
*De fotógrafo e louco, todo mundo tem um pouco
Cada um de nós tinha uma missão, que nos foi dada pelo Vinicius. Estávamos lá para aprender a contar histórias através de fotografias, cada um em um lugar diferente. A minha missão era fotografar numa cachaçaria (recebi algumas propostas de suborno de gente que queria beber fotografar lá, mas não pude aceitar…era contra as regras do workshop…rs). Mas os lugares não foram escolhidos aleatoriamente. Eram desafios.
Um artista plástico fotografar com criatividade…um outro artista plástico? Uma coisa que ele vê todo dia? Desafio. Um fotógrafo acostumado a ter todo o controle da sua fotografia, controle de luz, direção dos modelos… fotografar um guia turístico, que fica andando pra lá e pra cá o dia inteiro? Mais desafio. Um cara que preza acima de tudo a liberdade, ficar dois dias fotografando enfurnado numa república? Super desafio.
E o que dizer de uma fotógrafa que, apesar de maluca, é tímida e, de repente, se vê desafiada a fotografar numa loja, onde a todo momento entram clientes, pessoas que ela nunca viu, mas com quem terá que interagir, já que eles fazem parte daquela história que ela quer contar?
Primeiro sentimento: ME-DO. Mas não tinha como fugir.
E lá fui eu para a cachaçaria Milagre de Minas. Loja linda, cheia de garrafas bonitas, coloridas, artigos de pedra sabão ao fundo, vários detalhes fofos, super aconchegante.
A Leila, gerente da loja, me recebeu com muito carinho e me deixou super à vontade para fotografar e beber (!) o que quisesse (juro que não bebi nada!).
Mas eu estava ali para contar uma história. E para contar uma história, eu tinha que, em primeiro lugar, identificar o(s) protagonista(s), o(s) coadjuvante(s) e os figurantes dela.
Depois de um tempo andando pela loja, olhando tudo e tentando deixar a timidez de lado, comecei a conversar com a Bionnika, a vendedora. Em dois minutos descobri que ela estava trabalhando ali havia apenas três dias e que, no segundo dia de trabalho, tinha conseguido vender a cachaça mais cara da loja, a Havana, que custa 450 reais (Oi? É de ouro?) e há quase um ano não era vendida. Mais três minutos de papo e eu descobri também que ela era formada em Letras, pós-graduada em Filosofia, casada com um inglês professor de química e que estava realizando o sonho de morar em Ouro Preto há apenas duas semanas. Pronto, em 5 minutos de conversa eu já tinha a protagonista da minha história.
Mas eu ainda tinha um caminho a percorrer. A Bionnika, super simpática, me falou sobre a família, sobre seus sonhos, contou que adora cozinhar. E tudo isso era parte da história dela, lógico. E para contar essa parte da história, eu precisava ir até a casa dela, fotografá-la ao lado do marido. Papo vai, papo vem, acho que consegui conquistar a confiança da Bionnika, pois quando perguntei se poderia ir até a casa dela para fotografar, ela não se opôs, só disse que não tinha quase nada em casa, já que estavam morando ali havia pouco tempo. Eu respondi que isso fazia parte da história dela, a história que eu queria contar. E lá fomos nós.
Foram dois dias intensos nos quais eu tentei registrar o cotidiano da Bionnika na cachaçaria e em casa. O marido dela, Jason, também foi muito simpático, conversou, contou piadas. Fui convidada para jantar com eles e terminei o segundo dia de fotografias com uma comidinha deliciosa preparada pela Bionnika. Foram dois dias incríveis e surpreendentes.
Tá, eu tive sorte, vai… A Bionnika era simpática e ajudou muito o meu trabalho de abordagem. Como eu disse lá em cima, em 5 minutos já éramos amigas de infância. Mesmo assim, a sensação de superação dessa dificuldade que sempre tive no primeiro contato é indescritível. Saí de lá com vontade de conversar com todo mundo na rua, de descobrir histórias interessantes em cada esquina.
No depoimento que fizemos em vídeo sobre o workshop (mais um desafio para mim…eu, logo eu, falando para uma câmera… tremi horrores!), eu disse mais ou menos o seguinte: “Eu vim fazer esse workshop para tentar melhorar a maneira de me relacionar com as pessoas que fotografo. E aqui eu aprendi que para fotografar uma pessoa, é preciso, antes de tudo, vê-la com o coração.”
É isso. O ser humano pode ser surpreendente. Basta abrir seu coração e aprender a ver e ouvir.
Juro que tentei colocar aqui no blog o slideshow com as fotos do workshop, mas não consegui. Se você, guerreiro que chegou ao fim desse mega post e não clicou no link lá do início, tiver mais 4 minutinhos livres e quiser ver o slideshow, clique aqui.
Por fim (tá acabando, juro..), quero agradecer mais uma vez à Bionnika, ao Jason, à Leila e a todos que fizeram parte dessa experiência incrível.
Vinicius, Cris, Glaucia, Erica, Vera, Edson, Bruno, Derli, Ribas, Paulo, Alexandre: sou fã de vocês.
Um beijo.
Márcia










































Ai… chorei… :}
Nossa… me senti lá…
Sabe… buscamos encontrar pessoas, descobrir coisas, fazer diferente. E no final, somos encontrados, descobertos, e percebemos que todos somos iguais.
Um grande abraço, Marcinha!
03/05/2011 at 11:23 pm
Marcia que legal esse post !! Só quem esteve la consegue entender perfeitamente o que significa esse workshop . Parabéns ficou um show !! Beijo Erica
04/05/2011 at 3:06 am
Vc fotografou por dois anos o aniversário da Carol(esse ano fez muita falta), e acho que esse olhar amoroso vc sempre teve. Acho q não percebia, ou melhor, não sabia que tinha e que agora descoberto por vc vai tornar suas fotos mais incriveis ainda. Parabéns!!
04/05/2011 at 9:47 am
Minha Querida Amiga, li tudo.. e achei mega interessante como vc descreveu ao seu modo a nossa vivência…
Obrigada por estar lá conosco..
Beijos!!
Cris Fernandes
04/05/2011 at 10:25 am
Querida, eu li seu post e parece que eu estava escutando sua voz.. parecia que vc estava me contando o que eu também vivi. Lindo o post, me arrepiei em vários momentos.
Um prazer enorme ter te conhecido, prazer enorme ter sido sua vizinha, prazer enorme de ter dividido minhas alegrias e medos com você!
Parabéns pelo post! Amei muito!
Saudades, Glau
04/05/2011 at 3:59 pm
Mto legal, Marcinha!!!!
Parabéns!
04/05/2011 at 7:52 pm
Fantástico o seu relato! Grande superação, Márcia. E falo isso pq tmb sou bem tímida e sei como, as vezes, pode ser difícil interagir.
Quero fazer esse workshop amanhã!
Ah, sem falar q as fotos estão lindasssss
05/05/2011 at 10:16 pm